Quando o silêncio faz morada, eu sei, estou atrás de equilÃbrio. O silêncio não é vazio. No silêncio, muito se encontra, muito se reconstitui ou muda. Quando minha mente grita, quando meu corpo padece, quando minha voz se encerra, o silêncio me abraça e parece insinuar que sua presença repleta de significados não é em vão. Tudo se acalma; tudo se faz paz. Tudo. É. Silêncio.
Há algum tempo, um amigo veio me contar que acabara de receber uma mensagem de sua ex, de quem ele ainda nutre sentimento. Talvez com o coração um pouco aflito, ele esperou terminar um trabalho para abrir o pequeno texto que começava com um "olá, meu bem, como vai?". Meu amigo, então, respirou um fundo, voltou sua atenção para mim e disse: Meu bem? Ela chama até o garçom de meu bem!
De imediato, achei engraçada a fala dele, afinal, que bom que vem mantendo seu bom humor, mesmo após o término, que ocorreu tão recentemente. Mas, depois, parei para pensar sobre. Como é esquisita a sensação de que num dia você foi grande parte de algo e em outro você é um “meu bem”. Não que o chamamento carinhoso não tenha mérito. Não é nada disso. Porém, antes, certamente o “bom dia” vinha incansavelmente, o “meu amor” era praticamente cantado e promessas faziam tudo engrenar e o mundo girar.
Agora, o bem querer se tornou, talvez, intenção de alguma amizade; de querer estar perto, mas não tão próximo ao ponto de um toque mais sensÃvel. O que se passa no coração daquele que se torna o “meu bem”? Creio que não é uma resposta difÃcil de obter. Todos nós, ou a grande maioria, já teve uma experiência assim, isso quando o término acontece de modo pacÃfico.
O “olá, meu bem” dele me fez refletir. O carinho não tão próximo me fez ver que por vezes construÃmos um mundo particular e o mantemos tão nosso que só a ideia dele se partir já nos consome. Quando, de fato, isso acontece, seja por qual motivo for, é inevitável não sentir, não trazer consigo o pesar. É o luto que se achega. É um laço que se desfaz. É o seu mundo se tornando cada vez mais, alargando-se para um afastamento em que o “meu bem” se cria e te faz acordar: o caminho continua.

