Refúgio

06:32:00


São poucos os que estarão com você na alegria, na tristeza, na saúde e na doença.

São raros aqueles que mesmos rodeados por sua dor deixarão algo de lado para te acolher num dia de carnaval, sol a pino, alegrias estampadas em faces alheias, só para poder te abraçar e fazer com que seu mundo em chamas pare de ferir sua pele por algum instante. 

São preciosos aqueles que vão escrever algo bonito, ou, então, dizer palavras sinceras e que mais parecem carinho apenas para deixar uma memória do quanto de afeto ainda pode existir num ser humano.

São momentos tão únicos quando não se bebe só; quando as euforias implantadas no coração resultam em músicas, danças estranhas e risadas inocentes e puras.

São pequenos mundos assim que me sustentam, que me dizem que ainda não acabou. São pequenas frações de respiros na superfície que me aconchegam no mais fundo de mim, mesmo quando não queria estar lá.

São delicados os pequenos gestos, as sutilezas de dias cinzas ou coloridos, ou a voz e a melodia que um dia saíram das cordas, me embalaram em meio a pesadelos e me fizeram descansar em paz. 



Velho

09:03:00

Lá vinha ele de novo. Franzino, enrugado, soando fraco e quase quebradiço no meio daquele inferno de carros e de tudo mais que se move à gasolina ou a qualquer coisa que ajude a dar vida àqueles monstros. 

O corpo, pequeno e sensível, estava curvado, como sempre. Em sua cabeça, um bonezinho branco. Vestia uma camisa de botões, uma bermuda e chinelos. Ele insistia em se manter no meio da avenida, praticamente parado e acenando para os carros. Em suas mãos, estava uma (ou seria a única?) possível parca fonte de renda, suas paçocas.

Ela via tudo pela calçada, enquanto caminhava apressada para mais um dia de trabalho. Não conseguia desgrudar os olhos daquela cena. Ele se arriscava ali. Ela esperava que nada de pior acontecesse. 

Não era a primeira vez que o via. Mas foi a estreia de uma atitude ainda mais guerreira do que já tinha presenciado. Zigue-zagueava por entre automóveis e corria em seus passos lentos e quase trôpegos. Em seguida, simplesmente se manteve inerte à movimentação insana e ali ficou, até que o sinal fechasse novamente e suas vendas pudessem ser retomadas. 

A cena não saíra de sua cabeça, como as demais que recebeu dele. Ele era a personificação de muita gente que está por aí, pelo país. Gente que mesmo com uma idade tão avançada, com tantos cabelos brancos e tanta dificuldade de ser ágil ainda precisa sair às ruas e se arriscar com suas balas e paçocas. Tudo pelo sobreviver. Tudo para manter alguma dignidade, alguma comida, alguma sobrevida. 



Já havia tentado escrever, expor melhor o que vejo sobre este caso umas duas outras vezes. Nunca me senti satisfeita. Confesso, ainda não é.