Balzaquiana

09:40:00

Chego aos 29, em setembro. Sou uma balzaquiana, portanto. Isso nunca me assustou. Nunca deixei de dormir ao perceber que os dias estão passando por mim e linhas de expressão estão marcando meu sorriso ou meu olhar. Trintar é natural.

Porém, não raro, vemos muito marketing envolvendo o assunto. Sei que nossa tendência é amadurecer, crescer, obter mais sabedoria e evoluir. Mas, ainda assim, alardear a casa dos 30 é um tanto excêntrico. Valorizar um número é empobrecer vivências e coisas que ainda precisam ser aprendidas.

Fixar-se em casas decimais é, no mínimo, limitar-se; é se  perder em contagens e no que eles esperam da década e não focar no que realmente importa: as viagens com ou sem companhias, as lágrimas perdidas no meio disso tudo, os sorrisos que iluminaram a estrada, os beijos que marcaram a memória e o pescoço, as lições bem dadas, os tapas na cara que a vida também se encarregou de devolver, os sonhos, os desejos, as bebedeiras, o choro (de novo) após vários copos virados, os casinhos de paixão, amores de todas as formas...

Estou aqui, beirando os 29 com muitas dúvidas, ainda, mas certezas também. Eis algumas delas (minhas):

1) Um pouco mais de esperteza vem chegando;
2) Um pouco mais de pé no chão também;
3) Assim como boa dose de sonho, mas sempre acompanhada de algum plano de como chegar lá;
4) Aprendi a me aceitar mais, assim como a perceber onde posso buscar evolução;
5) Aprendi, também, a aceitar meus fracassos e a me perdoar;
6) Vejo que preciso estar em equilíbrio comigo mesma, o máximo que conseguir;
7) Suspeito que a tal da intuição feminina se torna cada vez mais latente e certeira;
8) Significa poder até ter dúvidas, mas saber muito bem o que não se quer;
9) Preferir, inúmeras vezes, estar jogada no sofá vendo seriado ou filme a estar numa balada;
10) Gostar de pensar, de escrever sobre o que é pensado e buscar, a partir disso, alguma sabedoria no fundo do balde.


E vou mudando, passando pelos anos e me tornando cada vez mais eu 

Memento mori

09:00:00

Saí de manhã pela longa, quente transbordante e movimentada avenida com o gosto e o bafo de álcool da noite anterior. Minha cabeça explodia, como se agulhas penetrassem meu crânio duro e raspado. Eu odiava aquele lugar, aquela vida presa à necessidade de ter e aos horários que não podia exceder.

De qualquer forma, não tinha saída para mim. Já estava preso a isso e ia me arrastando pelos dias. Não esperava por nada de novo, de excitante, a não ser o momento em que ficava só e caía no sono maldito costumeiro.

Tudo era frio, monótono e insosso, até o dia em que a vi. Como era linda! Sua pele reluzia e me chamava à maciez, assim como seus longos cabelos escuros ondulados. Tudo nela evocava paixão e a sensação de que um buraco acabara de se abrir sob meus pés. Era o fim da minha vida.

Nunca tinha visto um olhar como aquele. Ele me sugava de tal maneira, que o mundo se desmanchou feito alucinação. Eu apenas conseguia ver vultos e pessoas escorrendo pelos buracos de suas vidas. Ela era a única figura sólida e intacta, como se fosse um anjo em minha porta pronta para sentenciar meu fim.

"Maldita", pensava num crescendo horroroso de querer, mas não devendo. Suas mãos frias tocaram meu rosto e eu percebi que não era mais meu (como se antes tivesse sido, meu cérebro me maltratava).

Tudo ficou claro. Apenas uma porta velha me esperava, ao fim do corredor. Passei por ela. Meu pulso cessou. 


Forever young

16:51:00

"May God bless and keep you always
May your wishes all come true
May you always do for others
And let others do for you
May you build a ladder to the stars
And climb on every rung
And may you stay forever young
May you stay forever young..."