Pó

11:53:00

Eu sabia que o mundo estava pegando fogo, mas, mesmo assim, eu deixava arder. 

Era como se, ao fazer isso, eu me sentisse viva, menos dona situação; mais dona de mim. Eu permiti que palavras queimassem; que sonhos se inflamassem e se tornassem pó. Eu deixei todos os meus esforços para trás. Não havia adiantado.

Toda entrega exige alguma renúncia. Eu não estava mais disposta a renunciar partes de mim mesma. Por isso deixei o mundo queimar, se despedaçar em cinzas. Por isso não tentei impedir que o vento arrastasse tudo.

Eu estive para além do meu limite. Não podia mais permitir. Por isso deixei o mundo se tornar um inferno de calor e confusão. Por isso eu me permiti ver tudo ser pulverizado daquela forma, naquele instante.

Nada daquilo valia mais alguma palavra. Que tudo queime de novo, e de novo, e de novo...

17:14:00

A gente sonha muito com o momento em que esbarraremos com pessoas que farão coro aos nossos desejos; que compartilharão conosco fragmentos de essência; que cantarão em noites turvas canções que nos passarão segurança, algum traço de alguma humanidade.



Lições da vovó

06:40:00

- Olha, que tênis mais bonito, Daniel! - Disse a vovó querendo animar o netinho de 4 anos a usar o novo sapato que havia ganhado do pai.
- Eu não gostei dele... - retrucou o pequeno, meio manhoso.
- Fala assim não, meu filho. Você sabia que tem criança que vai de chinelo pra escola? - Falou a senhora.
- Por quê? 
- Porque o papai dele não tem dinheiro para comprar, meu filho.
- Nadica?
- É, às vezes nada, meu filho. - Soltou suavemente a avó.

Ele pareceu ficar pensativo sobre o que acabara de receber da avó. Por fim, cedeu. Seus pés agora estão calçados com mais um par de tênis. 

17:41:00


Dores

10:29:00

Existem dores inexplicáveis.

Não existem palavras que conseguem descrevê-las, ou sequer chegar perto de sua essência.

Há um quê de indecifrável, de intransponível, de fadado, de sofrido demais para conseguir ser verbalizado.

Existem dores que mais parecem físicas do que qualquer outra coisa. É como sentir o coração mole, que só de encostar corre o risco de esmorecer, de se queimar.

Há dores que parecem nunca serem esquecidas, mas apenas diminuídas.

Há aquelas que hão de deixar marcas profundas e duradouras. Cicatrizes que vão compor o cenário do caos deixado.

São dores da faca, do sufocar, das palavras não ditas, dos gestos feitos, das lágrimas que nunca secam e transbordam feito sangue pelo chão.

São dores que puseram em chamas o peito, a esperança. 

Há dores inexplicáveis demais... e tudo que se pode fazer é senti-las e fazer uma oração para a noite, implorando por misericórdia e dias de paz. 

Pecados

09:44:00

Em algum momento de sua vida já teve a sensação ou a certeza de que todos os seus pecados caíram nos ombros? 

Como foi que se sentiu? Sentiu um peso praticamente físico, ou simplesmente quase sufocou com algum monstro interno que lhe roubava o ar?

Como foi que olhou pra si mesmo, no espelho? Viu apenas o seu reflexo, triste e pensativo, ou viu o que realmente era? Como se sentiu?

Como lidou com o fardo de tantas desventuras e ideias equivocadas? Você chorou? Você correu atrás para tentar replantar com algo bom, ou simplesmente não quis enxergar, mesmo em meio ao campo de dor?

Como você vislumbrou sair desse ciclo? Mirou num futuro de músicas mais bonitas, ou simplesmente fechou seus ouvidos e seu coração a qualquer outra canção? Manteve-se fiel às causas perdidas mesmo no campo de dor e desatino?

Como pretende viver com todos esses pecados recaindo, dia após dia, sobre seu pequeno mundo frágil?

Como pretende se olhar daqui em diante? Terá alguma atitude realmente concreta e importante, ou se manterá ali, em meio ao campo de dor?

"And I can see you, running through the fields of sorrow..."

19:38:00


Oposto

09:03:00

"O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença..."

Eu nem sei mais quantas vezes ouvi essa frase nos últimos tempos. Ela veio de bocas tão diferentes, de pessoas tão distintas, que só consigo pensar na razão disso. Por muitas mentes, o contrário de amar é odiar. Mas, se pararmos para refletir só um pouco mais, bem, faz mais sentido a indiferença, certo?!Sentir ódio ainda é sentir, de certo modo, amor. 

Sei lá, só mais uma divagação confusa da minha parte. 

Saturnine

16:56:00

Gentes, eu precisava compartilhar esta música, esta banda. Ouçam comigo :)


Primeiro encontro

10:27:00

Ele se sentou à minha frente e falava calmamente sobre coisas de sua vida. Eu gostei de ouvir. Era uma forma muito tranquila de soltar as palavras. Era um modo leve, beirando à falta de pretensão. O barzinho estava repleto de jovens estudantes recém-saídos de seus afazeres de universitários.

Bebemos bem pouco. Conversamos consideravelmente. No entanto, quase nunca seus olhos saíam de perto de mim. Eu retribuía sempre que falava, mas, na falta de assunto, olhava para todos os cantos, menos para ele. Era a velha sensação de vergonha. Flertar depois de um longo tempo num relacionamento pode causar isso.

Era um pouco estranho, digamos. Eu sentia meu estômago revirar, vontade de sair correndo de volta para minha cidade, as mãos frias. Por dentro, zombava de mim mesma. "Ué, cadê sua coragem agora, Bruna?". Mas, enfrentei todo esse vulcão queimando violentamente dentro de mim e dei a cara à tapa. 

Saímos de lá e fomos andando até o carro. Continuamos a falar, e falar. Eu já não sentia mais estranheza.

Ele foi gentil e me trouxe até perto de casa. Até então, só seus olhares diziam o que ele queria: me desafiar. Quando chegamos, ele não perdeu muito tempo e me deu um beijo. Nos despedimos e eu fui para casa pensando como era bom me sentir assim, viva, dona de mim, certa de que era assim que queria estar. 

Deitei na cama e sorri. Foi bom o primeiro encontro. 

Janela

12:02:00

Quando a vontade de explodir for tão grande que parece faltar seu ar, olhe pela janela. A minha me traz claridade, calor e topo de árvores e edifícios. 

Lua

16:40:00

Lua é o amor em forma de versos. Um dia, recebi esse amor assim, de forma tão pura, simples e cativante. Eu sempre, sempre serei grata por ter recebido isso da vida. 


"Ela veio até mim, e
E suas palavras me trouxeram um pedido.
Você me pediu a Lua
Mas como posso dá-la se ela já é sua?
Ou seria você a Lua?
Que traz luz e calmaria a minha noite nua?
Dar-lhe a Lua, por um momento
Seria tirar você do meu longo pensamento.
Seria deixar de olhar.
Seria só o deitar em minha cama fria
E pensar que não sou de sua vida.

Com outros olhos
Dar-lhe a Lua seria dar-me aos seus.
Seria causar-lhe o que sinto
E viver em você.
No mais longo e desconhecido
Dar-lhe a Lua seria dar-me a você,
O meu eu, o meu eu.
Diferentes em mim, mas que têm vivido em sentimento inominável.
Vivido em um amor;
Tão louco, tão certo, tão igual a Lua.
A você, a mim
A forte imensidão do brilho da noite.
Na escuridão do dia.
E dos dias em que não há Lua
Vem tristeza
Pois perco de mim a doce voz
Doce som que ela, Lua, você, traz em mim.
Querendo e não querendo vê-la, para não ter que a deixa ir.

Então dar-lhe a Lua é dar-me a você
Dar-lhe a Lua é tirar você de mim.
Dar-lhe a Lua é viver em você.
Dar-lhe a Lua é a confusão e a certeza que um sonhador irreal tem
Ao ver o brilho de sua vida
Soar mais alto a cada dia, a cada momento.
Com você, ou somente no seu pensar, no sentir você, no querer ter você.
Quem sabe, o melhor é
Dar-lhe a Lua
Ter você e ainda não ter.
E nesse tempo tomar conta dela, Lua, você.
E nesse tempo tomar o seu conhecer.
Até que no dia de perfeição do tolo.
Eu possa tomá-la a mim
E junto tragar a Lua à você.
E enfim tê-la em minha vida e
Poder chamá-la de minha, a Lua e você, você minha Lua."

Templo

13:04:00

“Quando você toca alguém, nunca toque só um corpo. Não esqueça que você toca uma pessoa e que neste corpo está toda a memória de sua existência. Assim, quando você toca um corpo, lembre-se de que você toca um Templo.”  

Quantas vezes nos esquecemos de que quando tocamos o outro, na verdade, tocamos outro universo, outro todo em si mesmo, outro templo?

Eu não sou apenas a orgânica, o que você vê e pode tocar. Eu sou muito mais. Eu sou meus pensamentos, minhas ideologias, meus sonhos, desejos, o que sinto, minha energia. Se tenho essa consciência, então, ao tocar outro corpo, tenho respeito, compaixão, empatia.

Quando outro universo encontra o meu, eu preciso sentir assim. Eu não quero e não devo violar o santuário de alguém. Eu preciso ser amor. 

Se meu santuário foi violado, eu não quero e não devo procurar fazer o mesmo. Pelo contrário, eu quero e preciso reconstituir meu equilíbrio, transpirar o que de negativo ainda mora no meu coração, seja a tristeza, a mágoa, a raiva e qualquer coisa assim. Só assim encontrarei a paz e o silêncio de meu templo. Só assim poderei voltar ao eixo e desejar e ser o bem.

Que o meu e o seu templo sejam amados, respeitados e aceitos em toda sua plenitude. O deus em mim saúda o deus que há em você.


O retorno do bem

06:05:00

A mãe levou seu filho a Mahatma Gandhi e implorou: “Por favor, Mahatma, peça ao meu filho para não comer muito açúcar, pois faz mal à saúde”. Gandhi, depois de uma pausa, pediu: “Traga seu filho daqui há duas semanas”.

Duas semanas depois, ela voltou com o filho. Gandhi olhou bem fundo nos olhos do garoto e disse:
“Não coma muito açúcar, pois faz mal à saúde”. Agradecida, mas perplexa, a mulher perguntou: “Por que me pediu duas semanas? Podia ter dito a mesma coisa antes!”. Gandhi respondeu: “Há duas semanas, eu estava comendo açúcar. Não posso exigir dos outros aquilo que não pratico”.

Quando ouvi essa historinha pela primeira vez, fiquei encantada. Quem realmente me conhece, sabe que busco evoluir como ser humano. É claro que nesse caminho tem pedra pra caramba, muitas lições, lágrimas, feridas e, com certeza, muitos erros.

Então, quando vi esse exemplo, há poucas semanas, pensei na fala final de Gandhi. Eu não posso exigir do outro o que eu mesma não planto, o que não cultivo dentro de mim. Parece óbvio, né, mas nem tanto. 

Eu tenho uma coleção de vivências em que desejei leveza, mas acabei sendo pesada. Experiências em que eu falava em paz, mas, no impulso, plantava batalha; queria luz, porém semeava escuridão. Essa é a parte dos erros. O momento que você se vê contraditório, ambíguo, como qualquer ser humano.

Desejar por si só não vai mudar algo. É preciso esforço. Querer algo implica em coerência. Se eu não dou aquilo que quero receber, como posso esperar que o outro me dê? O que é isso? Hipocrisia. 

Eu não posso exigir que meus amigos me sejam leais se eu mesma não consigo ser leal a alguém; não posso colocar a um namorado a questão da fidelidade como um dos valores do relacionamento se eu mesma não sei ser fiel; não posso exigir verdades se eu mesma vivo na mentira. Esses são apenas alguns exemplos que se encaixam na historinha. 

Por isso, a revolução começa dentro da gente. Quando cada um põe para si o que quer, a gente sai do campo das ideias e do desejo e vai à luta. Se eu quero amor, luz, verdades, positividade, eu vou cultivar em mim mesma todas essas coisas. É claro que vou continuar fraquejando em muitas situações; talvez até cause algumas feridas no meu coração ou no de outra pessoa, mas ninguém nunca disse que buscar o melhor é simples. Mas, o mais importante para mim é, eu estou tentando.

Então, se você está lendo este post, receba um pouco do meu carinho, do amor que trago comigo. Seja uma pessoa melhor. Muita luz para você.

Perigo azul

17:52:00

- Por que você não esquece esse cara e volta a ficar comigo? - Ele me perguntou na maior cara de pau (bem, ao menos eu achei).

- Para! A gente tá ficando sem compromisso, mas, sei lá, acho que pode dar em alguma coisa.

Eu dizia aquilo, mas eu já não tinha muita certeza de nada. Aqueles olhos azuis me tiravam, naquele instante, do meu rumo. Era impossível não se perder naquelas cores, afinal, isso já havia acontecido.

A gente estava numa mesa de um barzinho meio metido a besta, não muito próximos. Era um reencontro, após muitos meses. Ele do nada caiu na minha vida de novo, após mandar uma mensagem, dizendo que achava ter me visto numa festa. Eu ri. Acho que conhecia aquela estratégia para puxar assunto, como quem não quer nada. O que confirmou meu pensamento foi o "saudade"escrito por fim.

Nem me recordo direito por qual motivo a gente tinha deixado de se ver. Deve ter sido alguma discussão, algo assim. Foi um caso que durou apenas dois encontros, eu acho. E hoje, quando relembro, acho meio bizarro como duas pessoas se encontram na vida e já tretam em tão pouco tempo. 

Mas, de volta ao acaso causado por ele, lá estávamos nós, de novo, sentados, um de frente para o outro, e ele me encarando com aquele sorriso de canto de boca e aqueles olhos que me desconcertavam.

- Ah, Bruna, eu duvido um pouco disso. Se ele tá até agora com você e não falou nada, não acho que vai dar em algo. Fica comigo, porque comigo é certo.

Eu achava aquela tentativa de me "roubar" de um cara engraçada. Parecia bem coisa de homem seguro de si (ou do rolo que tivemos muito antes). Eu soltei um risinho misterioso e resolvi mudar de assunto.

- Vou viajar, semana que vem. Dar uma turistada.

- Viaja não. Fica comigo!

-  Você não desiste, né?!

- Não vai, por favor! Fica! E fica comigo! 

Ele apenas articulou os lábios naquele sorriso largo e encantador. Eu estava perdida. 

Passamos boa parte da tarde e da noite assim, flertando, conversando e bebendo uma boa cerveja gelada. Quando dei por mim, ele já estava sentado ao meu lado, próximo, bem próximo. 

Então aconteceu o que era, para mim, impossível não acontecer. Nos beijamos com muita vontade. Parecia um casal que não se via há muito tempo e que deseja muito tirar a saudade do peito. Não era bem esse o caso, mas fica a visão. 

Assim que o beijo acabou, ele olhou para mim, bem de perto e, novamente, sorriu. Então se levantou e foi até o banheiro. Eu só conseguia pensar que estava ferrada. O perigo tinha nome, sobrenome, endereço e cor. Era azul como o mar.

Divagando sobre o amor

07:30:00

Quem já não quase queimou o peito (ou o cérebro) pensando no que é o amor?! São várias as (in)definições sobre isso. Nem todos falam com muita certeza, propriedade, e eu penso que essas pessoas fazem bem. Acho que na natureza humana não é tudo que podemos colocar como absoluto. Mas, se me permitem, gostaria de arriscar um pouco e colocar as minhas certezas, ao menos.

Amar para mim é entrega. É quando você não poupa esforços, nome, ou qualquer outra coisa, só para ajudar, dividir, contribuir, ver feliz. Não é perder; é somar.

É, para mim, querer passar anos de sua vida ouvindo as mesmas histórias, ou novos casos da vida cotidiana, e perceber o quanto aquelas histórias também fazem parte de você.

Amar é desejar o bem acima de toda e qualquer coisa. Quem ama pode se exceder, mas, no fim, sempre quererá a luz para o outro que fica.

É ser verdade ao máximo, e menos, quase nunca, omissão ou mentira. Amor regado a ilusões e engano não é amor, não é sequer querer bem. É egoísmo. É imaturidade. 

Amor não é só uma palavra dita com facilidade. É a alma se revelando, cantando aos quatro cantos do mundo que está em paz com o outro, que se sente ainda mais plena.

Amor nunca será olhar nos olhos do outro e manipular. Se existe isso no meio de duas pessoas, suspeito que não haja amor. 

Amor nunca será apunhalar. Amor nunca poderia ser algo tão baixo e sujo. Amor seria olhar para o outro e se revelar, se mostrar sem rodeios e tantos medos.

Amor não é apenas a junção dos corpos excitados. Amor transcende. Ele é desejo e tesão, mas é muito mais a beleza dos toques, da sensação, as mensagens que as peles exalam, o gosto que fica de um gesto tão profundo e intenso.

Eu sei que amei. Tenho convicção que já senti o que percebo como amor. Se fui amada? Bem, quem sou eu para dizer. Só o outro pode saber. Acho que em cada peito funciona uma verdade. Ainda assim, me arrisco de novo e dou a minha resposta: não, não fui. 

Mas não pensem que isso me abala tanto. Eu não acredito que as coisas acontecem em vão. Acredito que todas aparecem para nos dar algo, ensinar. Eu também sei que um dia eu serei amada, com tamanha intensidade e verdade, que essa será minha felicidade.

Enquanto esse dia não chega, eu vou tecendo minha realidade, vou desmanchando laços que trouxeram dor e enganos. Vou caminhando com muito amor à minha volta, como tem sido. Vou sonhando com novos dias, novos olhares, toques. Vou sonhando com esse tal de amor.

Sentidos

13:49:00

As pessoas mentem olhando fundo nos olhos de alguém; enganam pensando que estão salvando a si mesmas. Os indivíduos são capazes de ocultar, de montar uma realidade paralela, desconsiderando o que há por trás das relações humanas. As pessoas se esquecem dos rastros que deixam, dos sentidos do outro, que a tudo pode ver. As pessoas se enganam. As pessoas se naturalizam nesse lado do ser humano. Elas querem redenção. Somos fracos e completamente patéticos. As pessoas mentem, mas as máscaras caem. 

Doce/amargo vinho

17:56:00

Levantei do sofá após beber uns três ou quatro copos, isso mesmo, copo (e tosco), de um vinho nem seco e nem suave. Estava sentindo meu corpo pesado, mas não aquele peso de quem quer hibernar, como quando se está bêbado. Sentia um torpor em todos os meus membros e uma paz dentro da minha mente que há dias não sentia.

Ficava meio perdida nos pensamentos, que insistiam em ser mais lerdos. Faz parte do show de querer encontrar no álcool um minuto de sossego. Eu merecia. Mais cedo, após um dia extremamente triste e estressante, sentia minha musculatura enrijecida e dolorida, o que me matava durante a hora do trabalho. 

Nesses dias ruins, tomar uma cerveja ou um pouco de vinho costumava ajudar. Eu saía um pouco do ar, do meu ímpeto de ter tudo que era meu sob controle. E era assim que eu estava. Me sentindo flutuar pela casa, sem preocupações, sem mágoas, tristeza ou qualquer sentimento que me deixasse para baixo.

Foi aí que me lembrei de muita coisa e tive receio. Meu receio vinha lá do fundo de mim. Eu tinha medo de que não conseguisse mais sorrir da mesma maneira para quem estava próximo; tinha receio de não conseguir abrir meu peito do jeito que gostava, escancarando tudo. Tive medo de não conseguir mais me aproximar da forma como sempre busquei cultivar. A vida às vezes pode nos maltratar. A vida não, convenhamos. Nós mesmos.

Somos simplesmente aquilo o que escolhemos e o caminho pelo qual decidimos andar.

Sentei em frente ao notebook e senti vontade de ouvir uma música. Coloquei qualquer coisa que estava em alguma pasta perdida por aí e respirei fundo. Será que essa sensação acabaria, iria embora? Definitivamente, eu não estou nesta vida para ser coadjuvante. Eu estou aqui para ser, para me descobrir mais e crescer.

Então, num gesto brusco, pausei a música, senti ela ainda pulsando nas minhas veias e decidi que dali em diante não deixaria mais um receio me paralisar. Basta de receios. Viva a vida e o vinho!




Wake up!

06:00:00

Há momentos da vida em que paramos e nos questionamos: o que estamos fazendo com os dias que nos foram dados?

Tempos atrás, uma pessoa falou algo, no meio da sua apresentação, que me fez ficar mais atenta: Quando a gente não sabe para que existe, a vida dá sono. Foi algo assim, na verdade. Eu guardei essas palavras e até agora estou ruminando isso. 

Os dias são corridos demais, exigentes demais para todos nós. Fazemos cada vez mais, em menor tempo, com menos recursos. São as obrigatoriedades dos dias. Mas, e aí, a vida se resumirá a isso, apenas? Triste, se for o caso. Mas tem sido assim para muita gente, uma sucessão de horas monótonas, mecânicas e/ou estressantes, desvairadas. 

Isso, definitivamente, não é viver; é sobreviver. Contar a hora do fim de semana, de um feriado ou das férias é a prova absoluta disso. A vida se tornou, para quem permitiu, uma perfeita engrenagem de uma chatice sem fim. Nos trancamos em casa ou em carros para evitarmos contato, pois temos medo demais. Saímos sempre à espreita, com receio de um assalto no ponto de ônibus, como o que ouvi esses dias. 

Estamos amordaçados pelo sistema e pela falta de sonhos. Quer dizer, sonhos existem, aos montes, mas eles estão amarrados a um querer que é subjugado por diversos outros motivos ou pretextos.

Ruminamos esses dias e pensamos quando a sorte virará. É preciso sair um pouco da matrix, observar o mundo lá fora, olhar para dentro e caminhar, mesmo que devagar e pesarosamente. Está chegando o dia de nos levantarmos e de sermos mais.




Fora do ar

11:54:00

Sucessão de dias iguais, monótonos, cheirando a mecânico, preenchidos por dissabores, com pitadas de desânimo e descrença, que foram regados na terra cinza, beirando à infertilidade e desespero, sabendo que tudo há de ser fim e de voltar ao pó, como os corpos que bailam descompromissados pela louca-vida-louca, sem data para voltar, sem dias para se preocupar, sem músicas para embalar, embebidos e embriagados de um amor de aparências. São apenas mais desperdícios de palavras, de ideias desconexas, insossas, ao mesmo tempo sendo repletas de sal e tonalidades sem vida, de vida, de sentimentos mal compreendidos.

Julho de 2014


Descomunal

13:20:00

"Sentia um cansaço descomunal. Olhava tudo, mas tudo lhe cansava a alma e os sentidos. Os olhos ardiam em resposta à luz intensa e infernal do sol do meio-dia".


Quem se arrisca?

06:51:00

Quem é que vai dizer que conhece a felicidade?
O que ela seria, um sorriso frouxo pela manhã, após um boa notícia? Ou seria a sensação que acomete as pessoas quando elas descobrem outros lugares?
O que seria a felicidade? Um palavra que se torna adjetivo em frases de autoajuda, ou um aperto no peito bom?
Quem seria corajoso suficiente para dizer que é feliz?
Feliz é aquele que nada vê, que nada sabe e, consequentemente, nada sente? Ou felicidade é estar em posse de todos os sentimentos?
Rir é sinônimo de felicidade? Gargalhar até chorar é sintoma disso?
Felicidade é estar com quem se ama? É andar até uma praia desconhecida e deixar os pés se aquecerem na areia morna?
Estar feliz é o mesmo que dizer que uma pessoa é plena?
Quem se arrisca a responder?
Quem vai me dizer, a plenos pulmões, que é feliz e morrerá feliz? 
E quem morrerá achando que foi?
Felicidade é aquela estampada em instagram de uma vida feito novela, ou está por trás de uma câmera?
Quem se arrisca a dizer?
Quem se arrisca a ser feliz?



Souvenirs

07:53:00

"Souvenirs d'un Autre Monde". Num bom português, lembranças de um outro mundo. Foi esta canção que ao ouvir, em meados de 2009, meu coração parou, minha respiração se manteve suspensa e eu perdi o fio da meada. Sem exageros. Uma indicação de álbum que se transformou num presente que mantenho até hoje.

Que sorte quando a gente ouve uma música e o mundo para por um instante. Ok, ok, pensem que é exagero de minha parte, mas quem nunca se sentiu assim?! Não se trata de genialidade. Bem, quem sou eu para dizer sobre técnicas musicais e todo o arcabouço que cerca uma música. Mas, no meu sentir, foi genial. Era um pequeno fruto roubado de algum éden. Lembro que ouvi centenas de vezes, dia após outro. Lia e relia o que achava de tradução das letras e tudo fazia um enorme sentido, ainda mais com a ambientação dada pelos músicos. Eu transbordava. 

Música e sentimentos andam juntos. Muito de sua arte está justamente aí, na capacidade de cada um de criar, sonhar, de transcender, que seja, com o que ela traz. A beleza está no caos que ela pode implantar, nas reações singelas, como de uma mão que se fecha, ou de uma lágrima que cai, das lembranças de um outro mundo que ressurgem e você se percebe em meio a tudo isso ligado, conectado a algo tão belo.

Eu permito, então, que a melodia me toque, que o ritmo embale meu corpo, que a mensagem venha até mim e se transforme num significado apenas meu. Eu permito, então, uma experiência graficante, que me faz sentir o pulsar da vida e de todas as coisas que me rodeiam. Eu deixo o céu me alcançar, meus olhos verem além do que o cotidiano me obrigada e meu coração me aquecer. 

Estou, agora, sob o azul, deitada em uma grama verde, por onde o vento brinca. Sinto meus cabelos serem acariciados e minha alma está em paz. Eu me entrego, eu confio ao universo meu sentir, eu espero no retorno do que mostrei ao mundo e eu aceito. Respiração calma. O mundo está em mim. 


Sobreviver

19:02:00

Eu vi um bebê ferido e marcado por toda uma vida. Eu vi uma mulher morta. Eu vi homossexuais serem assassinados pela intolerância. Eu vi crianças sendo lançadas às ruas para serem mortas ou prostituídas.

Eu vi um povo que é conhecido por sua alegria, mas, durante o dia, mantém um olhar triste nos sinais, onde um velho vende suas balas para sobreviver com seus passos vagarosos. Eu vi magnatas assaltarem nossa esperança e saírem ilesos, rindo às custas de um povo doente, sem comida na boca, sem escola para mudar essa grande piada de mau gosto e sem muita esperança. Eu me vi num mundo que está implodindo e repleto de medo, ganância, ideias tortas e ações sem sentido.

Eu me vi, sentada, acomodada numa cadeira que machuca um pouco minhas costas. Eu me vi falante, com alguma opinião para vomitar, mas ainda sem agir. Eu me vi e isso me incomodou. 


Marcas

18:19:00

Tenho cinco marcas em minha pele. A grande maioria preta e, apenas duas possuem tons, encontro de sentidos.

A primeira, feita em 2009, é a representação da imortalidade, o Ankh. Egípcio, o símbolo tem minha forte admiração. Uma vida após a morte... Como não desejar ardentemente uma outra chance? Sua escolha, então, foi muito natural, pois eu trazia essa crença de que o orgânico cessaria sim, mas a energia (ou alma, ou espírito, etc) não; ela seria perpetuada e levaria minha essência.

O Memento Mori surgiu em 2012, se não me falha a memória. De forma simples, seu significado, do latim, representa um canto: lembre-se de sua mortalidade. Muitos poderiam ter achado estranho, ou, quem sabe, um pouco soturno. Mas, pra mim, era uma questão de dualidade: em mim havia a esperança de um novo momento após algum desfecho. Uma vida após a outra. Lembrar-se da morte não precisa ser uma obsessão, mas sim internalizada como caminho natural. 

Em 2015, duas outras marcas. A primeira, desculpem-me o que falarei a seguir, caso soe sem qualquer modéstia, é linda! Eu deixei gravada uma árvore com um quê abstrato, repleta de cores, de intensidades, de suavidade. Incuti em sua estrutura de vida e de força o pulsar de um coração, que se esconde em meio sua raiz. O coração é o pulsar de tudo; é o cerne da questão. Já a que veio em seguida, meses depois, também é da mitologia egípcia. O olho de Hórus. Repousando delicadamente em um dedo, é um amuleto sentimental, lembrando-me da história de poder e de proteção. 

 A última, até então, nasceu neste ano. Ela é a junção de dois sentimentos nobres que venho buscando manter dentro de mim e em minhas ações: a paz e o amor. Pode parecer clichê, repetição, demagogia, o que mais vier à mente, não me importo. Eu sei, assim como todos vocês, a diferença que é viver em tempos tão malucos sentindo-se, de algum modo, mesmo que em momentos escassos, em paz e em harmonia com o que é mais importante. Já o amor, ah, dispensa qualquer apresentação. Se não respirarmos o amor e seguirmos em frente, como nos manteremos a salvo?






Balzaquiana

09:40:00

Chego aos 29, em setembro. Sou uma balzaquiana, portanto. Isso nunca me assustou. Nunca deixei de dormir ao perceber que os dias estão passando por mim e linhas de expressão estão marcando meu sorriso ou meu olhar. Trintar é natural.

Porém, não raro, vemos muito marketing envolvendo o assunto. Sei que nossa tendência é amadurecer, crescer, obter mais sabedoria e evoluir. Mas, ainda assim, alardear a casa dos 30 é um tanto excêntrico. Valorizar um número é empobrecer vivências e coisas que ainda precisam ser aprendidas.

Fixar-se em casas decimais é, no mínimo, limitar-se; é se  perder em contagens e no que eles esperam da década e não focar no que realmente importa: as viagens com ou sem companhias, as lágrimas perdidas no meio disso tudo, os sorrisos que iluminaram a estrada, os beijos que marcaram a memória e o pescoço, as lições bem dadas, os tapas na cara que a vida também se encarregou de devolver, os sonhos, os desejos, as bebedeiras, o choro (de novo) após vários copos virados, os casinhos de paixão, amores de todas as formas...

Estou aqui, beirando os 29 com muitas dúvidas, ainda, mas certezas também. Eis algumas delas (minhas):

1) Um pouco mais de esperteza vem chegando;
2) Um pouco mais de pé no chão também;
3) Assim como boa dose de sonho, mas sempre acompanhada de algum plano de como chegar lá;
4) Aprendi a me aceitar mais, assim como a perceber onde posso buscar evolução;
5) Aprendi, também, a aceitar meus fracassos e a me perdoar;
6) Vejo que preciso estar em equilíbrio comigo mesma, o máximo que conseguir;
7) Suspeito que a tal da intuição feminina se torna cada vez mais latente e certeira;
8) Significa poder até ter dúvidas, mas saber muito bem o que não se quer;
9) Preferir, inúmeras vezes, estar jogada no sofá vendo seriado ou filme a estar numa balada;
10) Gostar de pensar, de escrever sobre o que é pensado e buscar, a partir disso, alguma sabedoria no fundo do balde.


E vou mudando, passando pelos anos e me tornando cada vez mais eu 

Memento mori

09:00:00

Saí de manhã pela longa, quente transbordante e movimentada avenida com o gosto e o bafo de álcool da noite anterior. Minha cabeça explodia, como se agulhas penetrassem meu crânio duro e raspado. Eu odiava aquele lugar, aquela vida presa à necessidade de ter e aos horários que não podia exceder.

De qualquer forma, não tinha saída para mim. Já estava preso a isso e ia me arrastando pelos dias. Não esperava por nada de novo, de excitante, a não ser o momento em que ficava só e caía no sono maldito costumeiro.

Tudo era frio, monótono e insosso, até o dia em que a vi. Como era linda! Sua pele reluzia e me chamava à maciez, assim como seus longos cabelos escuros ondulados. Tudo nela evocava paixão e a sensação de que um buraco acabara de se abrir sob meus pés. Era o fim da minha vida.

Nunca tinha visto um olhar como aquele. Ele me sugava de tal maneira, que o mundo se desmanchou feito alucinação. Eu apenas conseguia ver vultos e pessoas escorrendo pelos buracos de suas vidas. Ela era a única figura sólida e intacta, como se fosse um anjo em minha porta pronta para sentenciar meu fim.

"Maldita", pensava num crescendo horroroso de querer, mas não devendo. Suas mãos frias tocaram meu rosto e eu percebi que não era mais meu (como se antes tivesse sido, meu cérebro me maltratava).

Tudo ficou claro. Apenas uma porta velha me esperava, ao fim do corredor. Passei por ela. Meu pulso cessou. 


Forever young

16:51:00

"May God bless and keep you always
May your wishes all come true
May you always do for others
And let others do for you
May you build a ladder to the stars
And climb on every rung
And may you stay forever young
May you stay forever young..."



Refúgio

06:32:00


São poucos os que estarão com você na alegria, na tristeza, na saúde e na doença.

São raros aqueles que mesmos rodeados por sua dor deixarão algo de lado para te acolher num dia de carnaval, sol a pino, alegrias estampadas em faces alheias, só para poder te abraçar e fazer com que seu mundo em chamas pare de ferir sua pele por algum instante. 

São preciosos aqueles que vão escrever algo bonito, ou, então, dizer palavras sinceras e que mais parecem carinho apenas para deixar uma memória do quanto de afeto ainda pode existir num ser humano.

São momentos tão únicos quando não se bebe só; quando as euforias implantadas no coração resultam em músicas, danças estranhas e risadas inocentes e puras.

São pequenos mundos assim que me sustentam, que me dizem que ainda não acabou. São pequenas frações de respiros na superfície que me aconchegam no mais fundo de mim, mesmo quando não queria estar lá.

São delicados os pequenos gestos, as sutilezas de dias cinzas ou coloridos, ou a voz e a melodia que um dia saíram das cordas, me embalaram em meio a pesadelos e me fizeram descansar em paz. 



Velho

09:03:00

Lá vinha ele de novo. Franzino, enrugado, soando fraco e quase quebradiço no meio daquele inferno de carros e de tudo mais que se move à gasolina ou a qualquer coisa que ajude a dar vida àqueles monstros. 

O corpo, pequeno e sensível, estava curvado, como sempre. Em sua cabeça, um bonezinho branco. Vestia uma camisa de botões, uma bermuda e chinelos. Ele insistia em se manter no meio da avenida, praticamente parado e acenando para os carros. Em suas mãos, estava uma (ou seria a única?) possível parca fonte de renda, suas paçocas.

Ela via tudo pela calçada, enquanto caminhava apressada para mais um dia de trabalho. Não conseguia desgrudar os olhos daquela cena. Ele se arriscava ali. Ela esperava que nada de pior acontecesse. 

Não era a primeira vez que o via. Mas foi a estreia de uma atitude ainda mais guerreira do que já tinha presenciado. Zigue-zagueava por entre automóveis e corria em seus passos lentos e quase trôpegos. Em seguida, simplesmente se manteve inerte à movimentação insana e ali ficou, até que o sinal fechasse novamente e suas vendas pudessem ser retomadas. 

A cena não saíra de sua cabeça, como as demais que recebeu dele. Ele era a personificação de muita gente que está por aí, pelo país. Gente que mesmo com uma idade tão avançada, com tantos cabelos brancos e tanta dificuldade de ser ágil ainda precisa sair às ruas e se arriscar com suas balas e paçocas. Tudo pelo sobreviver. Tudo para manter alguma dignidade, alguma comida, alguma sobrevida. 



Já havia tentado escrever, expor melhor o que vejo sobre este caso umas duas outras vezes. Nunca me senti satisfeita. Confesso, ainda não é. 

Relax

13:03:00

Se as mãos se tornarem gélidas, inspire e expire!

Uma série de pontos

07:42:00

Acordou. Estava no chão, no colchonete que não feria sua coluna. Pegou o celular e viu algumas atualizações. Preguiça. Até de respirar. Levantou-se e tentou se alongar. Foi meio em vão. Saiu do quarto bagunçado e foi comer algo. Para variar, pouca coisa. Nescau e um pequeno pão redondo. Banheiro. Banhou-se. Maquiou-se. Vestiu-se. Novamente em seu quarto. Organizou tudo que precisava. Entorpecida. Deu tchau pra mãe e saiu. 

No ponto. Sequer se recorda bem do tempo que esteve lá. Não lembra dos rostos e nem de carros. Veio a sequência correta de números. Subiu. Lotado. Puta merda, sempre a mesma merda. Praguejou. Depois respirou fundo e voltou ao torpor. Veio pensando em tudo. Mas em nada. Não se recorda. Não há fio da meada. 

Desceu grogue. Quase tropeçou na moça que sentou nos degraus. Cara, cadê o senso. Estava irritada. Respirou fundo. De novo. Chegou ao trabalho. Descobriu, pouco depois, que seu corpo avermelhava. Estava mais do que explicado. 


Sem rumo. O mundo.

06:00:00

Sempre admirei aqueles homens e mulheres que, de uma hora para a outra, pegam suas coisas, reúnem coragem e trocados e vão conhecer alguma parte de algum lugar. Lembro de um amigo me contando, certa vez, algumas dessas pequenas aventuras. Sempre o considerei aquele perfil meio hippie, ligado à natureza, cheio de pensamentos de viver em comunidade, plantando alimento e cultura. Um cara que não esquenta com nada, que pega carona em beira de qualquer estrada e leva sempre consigo um violão. E lá se vai ele, tocando lindamente o clássico sisudo e o folclórico empolgante. Eu ficava encantada, pensando: quem sabe um dia não me aventuro assim? 

Anos mais tarde, comecei a pensar em, primeiro, conhecer melhor o meu estado, descendo o litoral dele, ao menos. Ainda não pus nada disso em prática. Penso que sempre fiquei esperando uma boa oportunidade. Mas, confesso, a boa oportunidade era, na verdade, a espera de uma companhia. Acho que não teria tanta coragem de parar no asfalto, fazer um sinal e esperar por um desconhecido. A realidade estraga demais muitas coisas.

De qualquer forma, ainda é um projeto e sei que a qualquer hora posso, mesmo na minha forma meio organizada e sem caronas, juntar minha mochila e uns panos e me jogar na estrada. 

Conhecer outros lugares me dá uma espécie de adrenalina. É como desbravar outros mundos, cores, cheiros, sabores, texturas e uma infinidade de outras coisas. E o melhor, é tão gostoso quando se recorda daquele lugar em que os pés tocaram. Às vezes vem aquele misto de nostalgia, alegria e, claro, vontade de pegar um avião de novo e rumar por aí. 

Quem sabe nas minhas próximas férias não faço algo assim? O mundo está aí para quem realmente o quer. Viajemos, então. 

Perdida no paraíso. 2014.



Light

06:41:00

Tenho pensado muito sobre o dom de estar vivo, de ter um caminho para seguir. Sendo assim, é nobre demais poder acordar e respirar profundamente, sentindo meus pulmões funcionando e me fazendo crer que mais um dia me foi concedido. Por que, então, eu deixaria em meu peito algo negativo?

Todos os dias eu me levanto e penso: hoje vou tentar com a força que estiver em mim desconstruir aquilo que pode me destruir, como sentimentos de raiva, mágoa, inveja. É, já pode imaginar. Há dias que apanho, muito, e me sinto cansada. Mas há outros tantos em que consigo olhar para o céu estrelado e sentir, apenas, a beleza do que sou e do meu potencial. 

Longe de mim, com este desabafo, insinuar me mostrar como alguém que se acha sábia. Não mesmo. Sabedoria só se conquista, a meu ver, com muita luta, punhado de dor e reconhecimento de que há sempre algo a ser feito. O que quero mostrar é que o pulsar de vida em mim é grande, mesmo quando acho que não. Eu tenho aprendido. E sim, aprender é uma das coisas mais belas da vida. 

Aprender me permite sentir, vivenciar, respirar, amar... Aprender me dá fôlego; me dá esperança.

Sempre.

Eu vou buscar, incansavelmente, manter a bondade como chama de minha vida. 


2.

06:48:00

Música que veio à cabeça. Do nada. Meiga. Doce. Apazígua.




Sou

05:00:00

Eu me amo e me respeito. Amo cada pedaço meu. Amo meu corpo como um todo. Adoro minhas estrias que indicam que eu cresci rápido (apesar de não ver muita altura); amo meus dedos longos e finos, que minha mãe insiste em dizer que são de pianista; adoro minhas pintas, que existem em demasia, acho; amo de paixão meu cabelo castanho, que durante todos esses 28 anos me acompanha grande, pequeno, na cor original ou não, mas que ainda me causa certa birra com seu volume e ignora meus gestos; amo meu físico singelo, que pode soar apático, mas tem garra de leão.

Adoro quando estou em movimento causado pela dança e me vejo responder ao que um dia achei quase impossível; adoro quando meu quadril me permite representar a batida de uma música, o embalo de algum país; adoro ver como eu respondo a mim quando estou em transe. 

Me amo muito pelo que sou, pelo que conquistei em nível de ser. Amo o fato de ser observadora e quieta; amo o coração que tenho; amo o amor que há em mim; amo minha entrega, minha lealdade; amo minha honestidade, quem sou e de onde vim. Amo demais a ideia de tudo que posso ser; de tudo que posso conquistar por meio de minha força. Amo a ideia de que estou sempre em construção, atrás de algum ideal e aprendendo com a vida que me foi dada. Amo o que sou e ninguém pode me fazer ver diferente disso.

Se me amo, se me aceito, eu me compreendo e traço meu caminho por este mundo. Se me amo, se me aceito, eu simplesmente sou. E mais nada. 


A vida é para evoluir

13:20:00

Entre tantas coisas que vêm da sabedoria da minha humilde mãe, muitas eu encontro por aí, pela vida. Sabe como é, a galera mais antiga gosta de um ditado, de uma frase de efeito, que sempre é usada naqueles momentos fortes, decisivos ou de puxões de orelha. Já ouvi muitas, muitas delas (muitas se repetiram também, viu?!).

Uma dessas afirmações dela me acompanha até hoje, principalmente quando um desafio surge em minha porta. Ela sempre me disse que nenhum problema surge em nosso caminho sem que tenhamos força para enfrentá-lo (ela não diz bem assim, mas a ideia é essa). Ou seja: a gente só recebe o que, em tese, pode suportar.

Isso sempre me fez pensar, e muito. Quem já não se deparou com aflições e tempestades e não julgou ser incapaz de continuar? Quem já não cansou de chorar quando uma dor invadiu a alma, paralisando a mente e o coração? Quem já achou que seria melhor fugir dessa realidade, dessa vida? Quantos já não se deram por vencidos e se deixaram morrer das mais diferentes formas? 

Então, se podemos sofrer tanto, mas tanto ao ponto de achar que não tem solução, como o que aquele ditado pode fazer sentido e ser real? Essa era sempre a pergunta que não saía da minha mente. Inquietava-me essa coisa contraditória. 

Mas aí a vida me deu algumas pequenas frestas, alguns apontamentos. Já conheci gente que sofreu o pão que o diabo amassou e cuspiu, seja com doenças bizarras e sem cura, ou com histórias de famílias tristes, sem volta e cheias de violência. Mas, mesmo assim, nesses casos e em tantos outros que existem por aí, essas mesmas pessoas se mantiveram firmes, o tanto quanto podiam, e lutaram para não morrerem em vida. A isso se costuma chamar de resiliência. 

Eu ouvi bravas histórias, que se estendem até os dias atuais. Vi o brilho da vontade de continuar, pois havia nessas pessoas a chama de que a vida não é só dor e dias escuros. Havia o pensamento de que com fé (seja em que for), força e amor no peito as coisas iriam se resolver, custasse o que tivesse que custar.

Minha experiência também contribuiu, é claro. Uma vez eu caí. Para mim, na minha forma de sentir, foi uma puta de uma queda. Sofri sim, por tempo angustiante e achando que não suportaria nem mais um momento. No entanto, voltei de lá. Quando isso aconteceu, lembrei da minha mãe. Eu havia suportado e vencido. 

Eu sei que existem infinitos problemas e tormentas nesta vida. Sei que existem coisas insuportáveis de sentir, de viver. Mas, ainda assim, mantenho a ideia da minha senhorinha. Será que não somos capazes de superar o que aparecer? Pense nisso. Pensar positivo não é bobagem. É um dos remédios.



Valsa de um solitário

10:39:00

"Eu me sinto tão só. É esmagador esse sentimento. Ele sempre está ali, perto demais para não ser notado mesmo em coisas mais simples, como quando você abre sua janela e vê um lindo dia e não tem com quem dividir uma caminhada perto do mar. Será que todos os humanos se sentem assim, ou grande parte é abençoada demais para perceber ou até mesmo para ser solitária? Eu nunca saberei a resposta. Sei que usamos tantas máscaras, em tantos momentos, com tantas pessoas, que saber das profundezas do outro está além de minha capacidade, que, por sinal, choca-se comigo mesmo. Eu não sou capaz de compreender o todo em mim. Nunca serei. Não somos especiais. Não somos únicos. Somos complexos e egoístas demais. 

Quando era um garoto, percebi essa carga em minhas costas. Um dia, em meio a muitas crianças de minha idade, vi-me isolado... não porque quisesse aquilo (ou queria de algum modo? E por quê?), mas porque sempre me pareceu que não me encaixava. Já nem me recordo mais quantas vezes fui chamado de estranho ou esquisito. Em minha família, todos sempre me acharam educado, um cara simpático, inteligente e de boa índole. Sim, realmente, eu sou. Mas, algo em mim parece me bloquear o suficiente para evitar que me abra tanto para o mundo. Será esse o meu pecado? Será que ser assim me tornou um tanto alienado do resto?

Sei que não sou o único no mundo a pensar assim. Sei que muitos pensam de forma ainda mais profunda sobre isso. Eu só sei, quando sei, que sinto muito e, talvez por isso, sofra constantemente, e com coisas que sequer imaginava ou que nem tenho noção de que estão ali.

Não penso em dar um fim a mim mesmo, como tantos já fizeram ou ainda farão. Apesar de ver o mundo com olhos pessimistas, mas não o suficiente para querer liquidar tudo, ainda sinto pulsar em mim uma veia de vida, de um respiro. Eu sei, lá no fundo de mim, de algum modo estranho e mal explicado, que uma hora essa tormenta irá cessar. Assim espero."




In[sanidade]

16:26:00

Eu virei litros durante o dia de uma bebida amarga de cor viciante que antes me manteve seguro e vivo dentro de minha mente. De algum modo. Em momentos aleatórios, lá estava ela, lânguida, sóbria em sua dor e esperando... por mim.

Andei devagar para ela, por ela. Ela estendia seus finos braços, brancos como a neve de países distantes. Quando busquei o abraço oferecido, não havia mais seu perfume. Ela se fora mais uma vez para a minha completa confusão e dor.

Minha solidão, construída lentamente em décadas, dilacerava mais do que minha simples sanidade, que já não respondia por mim. Meu corpo cedia. A cada dia um pedaço meu caía sob o assoalho, onde me escondia de mim.

Sentia o cheiro pútrido e cheio de pecados e culpas. Sinal de vida se tornava cada vez mais escaço, a não ser pela minha sede infinita de álcool e de algum gesto de amor. Eu matei tudo isso com minhas mãos e com minha ganância sem medir qualquer consequência.

Adormeci no chão. Não havia mais tanta força em minhas mãos e braços para alcançar a garrafa que jazia bem perto de mim. Ela não viera, como ansiara durante a noite febril de desejo e dor aguda. Não ousava mais descer. Havia ainda muita bebida para me manter aquecido. 

De repente, ouvi sua doce voz. Vinha do andar debaixo. Deveria responder. Não havia motivo para me questionar. Era o canto da sereia. Desci as escadas arrastando o que sobrou de mim. Senti o chão estalar em protesto.

A encontrei sorrindo e num vestido esvoaçante branco. Linda, esplêndida em sua agonia. Ela não precisou falar. Eu sabia o que toda aquela beleza, aquela luz e infinitude queriam dizer. Ela veio até mim, olhou fundo em meus olhos e me desvairou completamente para si. Minha mente já não era mais minha, nem o meu corpo. Foi ali que percebi que ela nunca estivera ali. Eu me rendi. 

Ela não é real. Eu não posso fazê-la real...


Muitos e tantos

15:34:00

Muita gente vem e vai. Muitas vezes. Muita gente deixa uma marca, ou alguma sentença. Muita gente ri com você ou te faz chorar e desacreditar por um momento da humanidade. Muita gente não te compreende e não te aceita. Muita gente simplesmente acolhe, mesmo na diversidade. Muita gente retribui o sorriso, o amor. Muita gente é incapaz de tal gesto. Muita gente te respeita. Muita gente quer desprezar. Muita gente fica. Muitos vão embora. Faz parte da vida, do show que é viver. Tudo é uma fase, um aprendizado. 

Um brinde às palavras vazias

12:46:00

Elas saem aos montes e exalam grandiosidade.
Elas destoam do contexto e nos fazem cair de joelhos.
A gente continua esperando.

Elas surgem da boca e não acompanham o coração.
Elas têm a natureza suja de alguma ambição.
E a gente continua de joelhos.

Elas constroem um mundo a parte.
Elas nos enganam e podem nos destruir.
E a gente continua aqui, aos prantos.

Um brinde às palavras cheias de nada e repletas de vazio. 


Sobre a dor de ser mulher

06:19:00

Hoje, soube que mais uma se foi de modo grotesco e horripilante. O motivo? Ela tinha uma conta no Facebook. O companheiro tem o perfil que já se tornou velho conhecido de todos: violento, possessivo e ciumento (inseguro). 

Não quis ler a matéria. O título me bastava. Todos eles já bastam, na verdade. Todos eles já dizem, por si só, o absurdo que é ser mulher no mundo. É difícil pra cacete! E não, não venha me dizer que isso é querer valorizar apenas um lado. Essa é a verdade nua e crua, estampada TODOS OS DIAS em algum jornaleco, em algum noticiário do meio-dia sensacionalista, em algum site... 

É preciso falar disso todos os dias. É preciso valorizar a luta daquelas e daqueles que dedicam parte de sua vida a recuperar outras, a evitar outros fins como esse. É preciso enxergar o que muito já tem se falado: nada, absolutamente nada justifica e dá o direito a alguém de tirar uma vida; de expor ao ridículo, e por aí vai uma extensa lista absurda que só faz crescer.

São exposições de fotos e vídeos. São estupros justificados com os já famosos argumentos: “tudo puta!”, “se usa roupa curta é porque está querendo!”, “pega geral!”. 

Viramos objetos. Viramos uma escória que tem que se calar, sempre, mesmo dentro de um coletivo, ou de um supermercado. Viramos algo que precisa ser violentado, forçado, desvalorizado... algo que precisa ser morto!

Eu não preciso ler todas as matérias para entender qual foi o motivo, pois eu sei qual foi o mecanismo que impulsionou. O que eu queria saber (não só eu, evidentemente), se fosse possível, é quando isso acabará; quando haverá mais amor e paz entre os gêneros; quando a mulher deixará de ser uma posse e passará a ser vista como um SER HUMANO livre e dotado de capacidade...

Meu texto pode ser apenas mais um. Minha voz pode ser apenas mais uma em meio a tantas que já gritam e já gritaram. Não importa. Importa que agora minha voz e meu texto somam algo. 

Não preciso ler mais uma notícia...

Dedico humildemente o meu “pouco” a todas que já se foram; a todos que ainda estão aqui, mesmo após; e àqueles que lutam de algum modo.



Cê sente saudade de quê?

05:59:00

Eu sinto saudade do tempo em que minha varanda sempre tinha uma rede preguiçosa e a sombra da mangueira.

Eu sinto saudade dessa mangueira, que nos dava sombra e muitos sucos encorpados no verão, além da vontade de se aventurar por ela (coisa que não fazia por não dar pé).

Eu sinto saudade dos jogos passados da Seleção (meados dos anos 90), quando a família se reunia, torcia e se divertia em um churrasco.

Eu sinto saudade de andar de patins pela calçada com outras crianças.

Eu sinto saudades de ver a molecada brincar de algum pique. Sinto falta de quando jogava Bete. 

Eu sinto saudade dos primos curtindo uma com as falas emboladas meio italianadas de uma avó que já partiu.

Eu sinto saudade das conversas de uma galera no banco da rua.

Eu sinto saudade de ir a Setiba.

Eu sinto falta. Eu sinto. Eu. Falta.

E você, tem saudade de quê?



1.

07:45:00

Uma música...


Na natureza do simples

15:06:00

Sabe o que mais gosto de ver em alguém? A simplicidade. Não preciso de um mundo complexo para me fascinar. A simplicidade sempre é certeira, pois ela transparece a essência. 

Gosto do olhar sincero, puro, direto e simples. Não precisa ter rodeios. É só o brilho e nada mais. Eu me desmancho com sorriso aberto, fácil e sem intenções escuras. Tenho amor pelas palavras singelas, sabe, como aquelas que têm cheiro de maçã verde?! Gosto da acolhida aconchegante de um abraço, mesmo sendo o da despedida.

Fico alegre com gestos naturais e inocentes, como quando a saudade gostosa vem e instantaneamente as almas se encontram numa praça ou barzinho, ou quando mensagens chegam no celular, ou quando uma carta vem pelos Correios, ou quando, ou quando, ou quando...

Penso que a simplicidade é o reflexo de almas que querem viver em paz, no amor e na harmonia. Há algo mais belo do que isso? Na simplicidade estão os gestos que nos cativam, que nos tornam responsáveis e conscientes do amor. 

Nela os dias são mais gostosos. Nela há um mundo que muitos podem acolher. É nela que a vida se torna muito mais do que realizar meras necessidades, acumular bens, estresses e aparências.