Souvenirs

07:53:00

"Souvenirs d'un Autre Monde". Num bom português, lembranças de um outro mundo. Foi esta canção que ao ouvir, em meados de 2009, meu coração parou, minha respiração se manteve suspensa e eu perdi o fio da meada. Sem exageros. Uma indicação de álbum que se transformou num presente que mantenho até hoje.

Que sorte quando a gente ouve uma música e o mundo para por um instante. Ok, ok, pensem que é exagero de minha parte, mas quem nunca se sentiu assim?! Não se trata de genialidade. Bem, quem sou eu para dizer sobre técnicas musicais e todo o arcabouço que cerca uma música. Mas, no meu sentir, foi genial. Era um pequeno fruto roubado de algum éden. Lembro que ouvi centenas de vezes, dia após outro. Lia e relia o que achava de tradução das letras e tudo fazia um enorme sentido, ainda mais com a ambientação dada pelos músicos. Eu transbordava. 

Música e sentimentos andam juntos. Muito de sua arte está justamente aí, na capacidade de cada um de criar, sonhar, de transcender, que seja, com o que ela traz. A beleza está no caos que ela pode implantar, nas reações singelas, como de uma mão que se fecha, ou de uma lágrima que cai, das lembranças de um outro mundo que ressurgem e você se percebe em meio a tudo isso ligado, conectado a algo tão belo.

Eu permito, então, que a melodia me toque, que o ritmo embale meu corpo, que a mensagem venha até mim e se transforme num significado apenas meu. Eu permito, então, uma experiência graficante, que me faz sentir o pulsar da vida e de todas as coisas que me rodeiam. Eu deixo o céu me alcançar, meus olhos verem além do que o cotidiano me obrigada e meu coração me aquecer. 

Estou, agora, sob o azul, deitada em uma grama verde, por onde o vento brinca. Sinto meus cabelos serem acariciados e minha alma está em paz. Eu me entrego, eu confio ao universo meu sentir, eu espero no retorno do que mostrei ao mundo e eu aceito. Respiração calma. O mundo está em mim. 


Sobreviver

19:02:00

Eu vi um bebê ferido e marcado por toda uma vida. Eu vi uma mulher morta. Eu vi homossexuais serem assassinados pela intolerância. Eu vi crianças sendo lançadas às ruas para serem mortas ou prostituídas.

Eu vi um povo que é conhecido por sua alegria, mas, durante o dia, mantém um olhar triste nos sinais, onde um velho vende suas balas para sobreviver com seus passos vagarosos. Eu vi magnatas assaltarem nossa esperança e saírem ilesos, rindo às custas de um povo doente, sem comida na boca, sem escola para mudar essa grande piada de mau gosto e sem muita esperança. Eu me vi num mundo que está implodindo e repleto de medo, ganância, ideias tortas e ações sem sentido.

Eu me vi, sentada, acomodada numa cadeira que machuca um pouco minhas costas. Eu me vi falante, com alguma opinião para vomitar, mas ainda sem agir. Eu me vi e isso me incomodou. 


Marcas

18:19:00

Tenho cinco marcas em minha pele. A grande maioria preta e, apenas duas possuem tons, encontro de sentidos.

A primeira, feita em 2009, é a representação da imortalidade, o Ankh. Egípcio, o símbolo tem minha forte admiração. Uma vida após a morte... Como não desejar ardentemente uma outra chance? Sua escolha, então, foi muito natural, pois eu trazia essa crença de que o orgânico cessaria sim, mas a energia (ou alma, ou espírito, etc) não; ela seria perpetuada e levaria minha essência.

O Memento Mori surgiu em 2012, se não me falha a memória. De forma simples, seu significado, do latim, representa um canto: lembre-se de sua mortalidade. Muitos poderiam ter achado estranho, ou, quem sabe, um pouco soturno. Mas, pra mim, era uma questão de dualidade: em mim havia a esperança de um novo momento após algum desfecho. Uma vida após a outra. Lembrar-se da morte não precisa ser uma obsessão, mas sim internalizada como caminho natural. 

Em 2015, duas outras marcas. A primeira, desculpem-me o que falarei a seguir, caso soe sem qualquer modéstia, é linda! Eu deixei gravada uma árvore com um quê abstrato, repleta de cores, de intensidades, de suavidade. Incuti em sua estrutura de vida e de força o pulsar de um coração, que se esconde em meio sua raiz. O coração é o pulsar de tudo; é o cerne da questão. Já a que veio em seguida, meses depois, também é da mitologia egípcia. O olho de Hórus. Repousando delicadamente em um dedo, é um amuleto sentimental, lembrando-me da história de poder e de proteção. 

 A última, até então, nasceu neste ano. Ela é a junção de dois sentimentos nobres que venho buscando manter dentro de mim e em minhas ações: a paz e o amor. Pode parecer clichê, repetição, demagogia, o que mais vier à mente, não me importo. Eu sei, assim como todos vocês, a diferença que é viver em tempos tão malucos sentindo-se, de algum modo, mesmo que em momentos escassos, em paz e em harmonia com o que é mais importante. Já o amor, ah, dispensa qualquer apresentação. Se não respirarmos o amor e seguirmos em frente, como nos manteremos a salvo?