Lua [Caminhando para o dia]

07:08:00



3.

"Tudo que mais sonhei era me manter sempre viva, acordada. Mas, sucumbi. Sucumbi ao desejo de me dar algum descanso; de dar ao dia alguma vitória sobre mim, minha própria noite. Eu acordei para algo maior do que sempre senti? Como poderei lidar, acordada, em pleno dia, com a escuridão que se choca em mim? Eu, caminhante da noite, amante de um brilho que faz morada em mim. Como poderei aguentar o peso de outro mundo?"

Lua não suportava o calor que insistia em entrar por todos seus poros. Estava aos prantos, esperando por asas noturnas que nunca mais viriam. No entanto, estava certa de uma coisa: o dia era o único movimento que lhe dava força real para que se tornasse, enfim, dia, e não mais um eclipse.

As sensações lhe invadiam. Era um jorrar de palavras guardadas anos a fio; de sentimentos afogados em noite; de sonhos que nunca saíram daquele quarto. Não havia espaço para Lua nem mesmo na escuridão dos dias. Não haveria esperança para ela com a luz. O conto estava acabado, finalmente. Seu exorcismo fora completado com maestria.

Caminhou até a escrivaninha, pegou o caderno com capa de couro surrada, deu-lhe um beijo demorado e o encarou como se fosse um outro ser, dotado de um mundo inteiro que só ele poderia carregar consigo. Então o colocou na gaveta, mas não a trancou, como de costume.

- É preciso que minha noite, que meu canto sejam vistos, sejam sentidos...

Serenamente, Lua abriu a janela, o único cerco que a distanciava do mundo real, e subiu lentamente o parapeito. Encarou, pela primeira vez, o universo lá de fora, cercado de brilho e azul.

Como Ícaro, Lua abriu suas asas para o dia e finalmente voou. 

Lua [Parte 2]

10:49:00



2.
Levantou sobressaltada. Era manhã, sol a pino, e ela sequer havia sentido a necessidade de se manter acordada, como era de sua natureza. - O que está acontecendo? -, olhou ao redor, não reconhecendo seu quarto de toda uma vida cansada. Parecia que as coisas estavam fora do lugar, com cor em demasia e cheias de outros sentidos. 

A noite era sempre um flerte; um flerte com o outro lado de alguma vida, com alguma atitude que a manhã sempre desmantelava. A noite era o dia para ela; o espaço para devanear e dar às suas vontades as asas que lhe faltavam. Já o dia era a realidade massacrando desejos e sonhos. O dia era o sol invadindo sua janela sem cortina; era o tapa na cara que nunca lhe faltara. O dia era a morte de sua luz.

- Como não acordei antes? O que está havendo? Como vim parar aqui sem qualquer escolha? - As perguntas a dilaceravam.

Lua sempre foi de se perguntar, de se indagar sobre tudo. Perder a linha de raciocínio não era para ela. Não mesmo. Lua apreciava a noite, pois ela lhe trazia alguma sensação, mesmo que falsa, de paz. A noite lhe dava respostas e um aconchego que jamais havia recebido em sua vida. Não ter estado na noite, pela primeira vez, foi-lhe assustador. Mas, ao olhar para o seu conto sob a mesa, finalmente terminado, compreendeu...


Lua [Parte 1]

13:32:00



1.

Lua pertencia a um corpo franzino, desbotado e aparentemente sem muita vida. Seus cabelos negros, ondulados e sedosos, emolduravam seus ombros levemente caídos, o que representava, para ela, ares de fragilidade e fraqueza. 

Lua gostava de não dormir. Acordava às 3h, geralmente, sofrendo de algum mal de insônia. Então abria os olhos sorrateiramente, olhando em volta, sempre atenta, e sentava na cama em alerta. Ninguém na casa poderia ouvi-la, senão consequências daí viriam.

O grande problema era morar com sua mãe, a quem odiava com todo amor que havia em seu coração. Ela era a tudo o que Lua gostaria de negar a si mesma, mas que não podia, pois seu alto grau de percepção da vida não deixava espaço para ilusões. Ela era sua mãe. 

Ao acordar, Lua se metia em sua escrivaninha gasta pelo tempo e se colocava a tentar escrever seu conto que recebera o título de inacabado. A luz sempre pendia fraca e quase morta, afinal, qualquer espasmo luminoso além do seu causaria espanto. Todos tinham que dormir, independente do que houvesse. Esse era o pecado de Lua: não dormir.

Punha-se a digitar tudo que a alma parecia vomitar em sua mente cansada e sempre acordada. Escrevia sobre amor, sobre o ódio que conhecia de perto, sobre as dores de seu pecado, do mundo que criara para si distante de qualquer outro contato senão daqueles que haviam cravado sua redoma no mundo. Escrever era o seu exorcismo.

Correntes

09:59:00

A beleza pela beleza e mais nada. O ode ao que aparentemente se representa. A falta de uma identidade mais firme e clara faz cabeças girarem em todos os sentidos, sempre à procura de alguém que lhe dará alguma resposta; sempre atrás de alguma moda que parecerá, a princípio, porta para o autoconhecimento, ou, então, um anestésico.

Ninguém está a salvo! 

Vivemos em um tempo em que a imagem se sobressai e o vazio existencial parece saltar aos olhos de quem se prepara para observar um pouco mais. Estará a salvo quem puder ver, quem conseguir tentar sair do molde. Muitas voltas se darão a partir daí, inclusive, quem sabe, um longo retorno ao que se caracteriza como raiz.

Estamos todos cercados e acorrentados?



Vazia

16:41:00

Como é maluco estar cheia de coisas para falar e escrever e, ao mesmo tempo, não. É como um entrave que às vezes me acomete. E me incomoda. Muito. Aqui estou eu a escrever sobre o próprio ato de escrever. Divagando. E nem assim acho que sairá coisa boa. Algo proveitoso.

Estou lendo um livro em que a protagonista se sente exatamente assim. Tanto para expor e nada para colocar no papel virtual. É esquisito. É como se a cada ideia algum monstrinho viesse e a tirasse de minhas mãos. Na ponta da língua, apenas. 

"E tento escrever um livro. Estou escrevendo só. Ou tentando escrever. Sempre achei que deveria escrever um livro um dia, que tinha algo a dizer. Mas agora que comecei tenho dúvidas. Acho que não tenho nada a dizer que já não tenha sido dito."

Como são preciosas as ideias. Como é precioso escrever. É um mundo que não se fecha em si mesmo. É uma infinitude. Droga! Nem assim. Não hoje!