Valsa de um solitário

10:39:00

"Eu me sinto tão só. É esmagador esse sentimento. Ele sempre está ali, perto demais para não ser notado mesmo em coisas mais simples, como quando você abre sua janela e vê um lindo dia e não tem com quem dividir uma caminhada perto do mar. Será que todos os humanos se sentem assim, ou grande parte é abençoada demais para perceber ou até mesmo para ser solitária? Eu nunca saberei a resposta. Sei que usamos tantas máscaras, em tantos momentos, com tantas pessoas, que saber das profundezas do outro está além de minha capacidade, que, por sinal, choca-se comigo mesmo. Eu não sou capaz de compreender o todo em mim. Nunca serei. Não somos especiais. Não somos únicos. Somos complexos e egoístas demais. 

Quando era um garoto, percebi essa carga em minhas costas. Um dia, em meio a muitas crianças de minha idade, vi-me isolado... não porque quisesse aquilo (ou queria de algum modo? E por quê?), mas porque sempre me pareceu que não me encaixava. Já nem me recordo mais quantas vezes fui chamado de estranho ou esquisito. Em minha família, todos sempre me acharam educado, um cara simpático, inteligente e de boa índole. Sim, realmente, eu sou. Mas, algo em mim parece me bloquear o suficiente para evitar que me abra tanto para o mundo. Será esse o meu pecado? Será que ser assim me tornou um tanto alienado do resto?

Sei que não sou o único no mundo a pensar assim. Sei que muitos pensam de forma ainda mais profunda sobre isso. Eu só sei, quando sei, que sinto muito e, talvez por isso, sofra constantemente, e com coisas que sequer imaginava ou que nem tenho noção de que estão ali.

Não penso em dar um fim a mim mesmo, como tantos já fizeram ou ainda farão. Apesar de ver o mundo com olhos pessimistas, mas não o suficiente para querer liquidar tudo, ainda sinto pulsar em mim uma veia de vida, de um respiro. Eu sei, lá no fundo de mim, de algum modo estranho e mal explicado, que uma hora essa tormenta irá cessar. Assim espero."




In[sanidade]

16:26:00

Eu virei litros durante o dia de uma bebida amarga de cor viciante que antes me manteve seguro e vivo dentro de minha mente. De algum modo. Em momentos aleatórios, lá estava ela, lânguida, sóbria em sua dor e esperando... por mim.

Andei devagar para ela, por ela. Ela estendia seus finos braços, brancos como a neve de países distantes. Quando busquei o abraço oferecido, não havia mais seu perfume. Ela se fora mais uma vez para a minha completa confusão e dor.

Minha solidão, construída lentamente em décadas, dilacerava mais do que minha simples sanidade, que já não respondia por mim. Meu corpo cedia. A cada dia um pedaço meu caía sob o assoalho, onde me escondia de mim.

Sentia o cheiro pútrido e cheio de pecados e culpas. Sinal de vida se tornava cada vez mais escaço, a não ser pela minha sede infinita de álcool e de algum gesto de amor. Eu matei tudo isso com minhas mãos e com minha ganância sem medir qualquer consequência.

Adormeci no chão. Não havia mais tanta força em minhas mãos e braços para alcançar a garrafa que jazia bem perto de mim. Ela não viera, como ansiara durante a noite febril de desejo e dor aguda. Não ousava mais descer. Havia ainda muita bebida para me manter aquecido. 

De repente, ouvi sua doce voz. Vinha do andar debaixo. Deveria responder. Não havia motivo para me questionar. Era o canto da sereia. Desci as escadas arrastando o que sobrou de mim. Senti o chão estalar em protesto.

A encontrei sorrindo e num vestido esvoaçante branco. Linda, esplêndida em sua agonia. Ela não precisou falar. Eu sabia o que toda aquela beleza, aquela luz e infinitude queriam dizer. Ela veio até mim, olhou fundo em meus olhos e me desvairou completamente para si. Minha mente já não era mais minha, nem o meu corpo. Foi ali que percebi que ela nunca estivera ali. Eu me rendi. 

Ela não é real. Eu não posso fazê-la real...


Muitos e tantos

15:34:00

Muita gente vem e vai. Muitas vezes. Muita gente deixa uma marca, ou alguma sentença. Muita gente ri com você ou te faz chorar e desacreditar por um momento da humanidade. Muita gente não te compreende e não te aceita. Muita gente simplesmente acolhe, mesmo na diversidade. Muita gente retribui o sorriso, o amor. Muita gente é incapaz de tal gesto. Muita gente te respeita. Muita gente quer desprezar. Muita gente fica. Muitos vão embora. Faz parte da vida, do show que é viver. Tudo é uma fase, um aprendizado. 

Um brinde às palavras vazias

12:46:00

Elas saem aos montes e exalam grandiosidade.
Elas destoam do contexto e nos fazem cair de joelhos.
A gente continua esperando.

Elas surgem da boca e não acompanham o coração.
Elas têm a natureza suja de alguma ambição.
E a gente continua de joelhos.

Elas constroem um mundo a parte.
Elas nos enganam e podem nos destruir.
E a gente continua aqui, aos prantos.

Um brinde às palavras cheias de nada e repletas de vazio. 


Sobre a dor de ser mulher

06:19:00

Hoje, soube que mais uma se foi de modo grotesco e horripilante. O motivo? Ela tinha uma conta no Facebook. O companheiro tem o perfil que já se tornou velho conhecido de todos: violento, possessivo e ciumento (inseguro). 

Não quis ler a matéria. O título me bastava. Todos eles já bastam, na verdade. Todos eles já dizem, por si só, o absurdo que é ser mulher no mundo. É difícil pra cacete! E não, não venha me dizer que isso é querer valorizar apenas um lado. Essa é a verdade nua e crua, estampada TODOS OS DIAS em algum jornaleco, em algum noticiário do meio-dia sensacionalista, em algum site... 

É preciso falar disso todos os dias. É preciso valorizar a luta daquelas e daqueles que dedicam parte de sua vida a recuperar outras, a evitar outros fins como esse. É preciso enxergar o que muito já tem se falado: nada, absolutamente nada justifica e dá o direito a alguém de tirar uma vida; de expor ao ridículo, e por aí vai uma extensa lista absurda que só faz crescer.

São exposições de fotos e vídeos. São estupros justificados com os já famosos argumentos: “tudo puta!”, “se usa roupa curta é porque está querendo!”, “pega geral!”. 

Viramos objetos. Viramos uma escória que tem que se calar, sempre, mesmo dentro de um coletivo, ou de um supermercado. Viramos algo que precisa ser violentado, forçado, desvalorizado... algo que precisa ser morto!

Eu não preciso ler todas as matérias para entender qual foi o motivo, pois eu sei qual foi o mecanismo que impulsionou. O que eu queria saber (não só eu, evidentemente), se fosse possível, é quando isso acabará; quando haverá mais amor e paz entre os gêneros; quando a mulher deixará de ser uma posse e passará a ser vista como um SER HUMANO livre e dotado de capacidade...

Meu texto pode ser apenas mais um. Minha voz pode ser apenas mais uma em meio a tantas que já gritam e já gritaram. Não importa. Importa que agora minha voz e meu texto somam algo. 

Não preciso ler mais uma notícia...

Dedico humildemente o meu “pouco” a todas que já se foram; a todos que ainda estão aqui, mesmo após; e àqueles que lutam de algum modo.



Cê sente saudade de quê?

05:59:00

Eu sinto saudade do tempo em que minha varanda sempre tinha uma rede preguiçosa e a sombra da mangueira.

Eu sinto saudade dessa mangueira, que nos dava sombra e muitos sucos encorpados no verão, além da vontade de se aventurar por ela (coisa que não fazia por não dar pé).

Eu sinto saudade dos jogos passados da Seleção (meados dos anos 90), quando a família se reunia, torcia e se divertia em um churrasco.

Eu sinto saudade de andar de patins pela calçada com outras crianças.

Eu sinto saudades de ver a molecada brincar de algum pique. Sinto falta de quando jogava Bete. 

Eu sinto saudade dos primos curtindo uma com as falas emboladas meio italianadas de uma avó que já partiu.

Eu sinto saudade das conversas de uma galera no banco da rua.

Eu sinto saudade de ir a Setiba.

Eu sinto falta. Eu sinto. Eu. Falta.

E você, tem saudade de quê?



1.

07:45:00

Uma música...


Na natureza do simples

15:06:00

Sabe o que mais gosto de ver em alguém? A simplicidade. Não preciso de um mundo complexo para me fascinar. A simplicidade sempre é certeira, pois ela transparece a essência. 

Gosto do olhar sincero, puro, direto e simples. Não precisa ter rodeios. É só o brilho e nada mais. Eu me desmancho com sorriso aberto, fácil e sem intenções escuras. Tenho amor pelas palavras singelas, sabe, como aquelas que têm cheiro de maçã verde?! Gosto da acolhida aconchegante de um abraço, mesmo sendo o da despedida.

Fico alegre com gestos naturais e inocentes, como quando a saudade gostosa vem e instantaneamente as almas se encontram numa praça ou barzinho, ou quando mensagens chegam no celular, ou quando uma carta vem pelos Correios, ou quando, ou quando, ou quando...

Penso que a simplicidade é o reflexo de almas que querem viver em paz, no amor e na harmonia. Há algo mais belo do que isso? Na simplicidade estão os gestos que nos cativam, que nos tornam responsáveis e conscientes do amor. 

Nela os dias são mais gostosos. Nela há um mundo que muitos podem acolher. É nela que a vida se torna muito mais do que realizar meras necessidades, acumular bens, estresses e aparências.