Como vai você?

10:41:00

Como são gostosas as conversas cotidianas, como aquelas em que simplesmente trocamos informações bobas sobre gostos, humor do momento e, claro, a clássica "como foi o seu dia?". São detalhes da vida de todos nós que somam brilho a cada um. É como descobrir um pouco mais o outro a cada resposta. 

É por aí que a gente vai desbravando os filmes que estão na memória, os pratos que se desmancham na boca só com a lembrança, o estresse que ficou amargurado e lacrado em forma de algum desaforo. É uma sorte de coisas que estão ali prontas para se tornarem histórias, produzirem mais memórias e nos darem um tom a mais à manhã, tarde ou noite. Essa é uma das delícias da vida.

Noite

09:27:00

Pesadelos. Sonhos ruins, malvados. Medos que aparecem como bestas a atormentar minha mente. No silêncio da noite, na brisa que balança o sino dos ventos, no estalo que se ouve lá fora, lá estão eles, à espreita. Incutidos em minha mente, escondidos entre devaneios, lá estão eles, esperando, apenas. No sorriso de deboche, nas mentiras pregadas pela mente, nas armas de fogo apontadas, nas ações violentas, lá estão eles, esperando. A noite virá.



Não te inquietes

09:06:00

Não te inquietes! O tempo já vem e manterá tudo ao alcance.
Não te inquietes! O coração abranda, há de se abrandar.
Aquiete-se e perceba! A vida não é um sentido aleatório.
Aquiete-se, pois a brisa já vem em sua direção e dará o aconchego que procura.
Não te inquietes! Aquiete-se!





Alienando-me

08:04:00

Alieno-me de sentimentos praticamente ocos, de paz que não dura mais de cinco minutos.
Alieno-me de algumas certezas, de mentes vazias que buscam apenas o seu prazer.
Fecho-me em meu mundo, mantenho a porta entreaberta, mas não entra quem quer.
Alieno-me de bajulações, de cabeças pensantes que exaltam o falso.


Finado João

07:08:00

Eu sequer o conheço, mas, ao que parece, ele é o finado em vida, ao menos para ela, que pegou ônibus aquela manhã e parecia estar possuída por tanto ódio. Ela acabara de descobrir que João, o amor e o nome que carrega tatuado no braço, tinha outra família por aí. Sentada no banco largo do ônibus, mais que depressa ligou para uma amiga e desabafou seu drama, mas não com pesar, mas com ódio e vontade de articular planos diabólicos. O ódio cega. O ódio destrói. O ódio pode acabar com João, o finado.

(Texto baseado em uma história real vivenciada em um ônibus pela Tay Rodrigues)




Assédio

09:14:00


Passei por ele ao ir buscar uma Bohemia no freezer do supermercado. Eu e meu namorado temos esse costume de fazer compras bebericando uma geladinha. Ao passar pelo desconhecido, um esbarrão. A princípio, pensei que nada fosse, apenas um pequeno acidente. Na volta, ao passar novamente pelo local, ele continuava a olhar as cervejas expostas e, como num passe de mágica, percebi de modo periférico que seu braço e sua mão se estendiam de forma preguiçosa e discreta. O objetivo? Que seu gesto obsceno de querer encostar em mim passasse de novo despercebido.

Consegui me desviar daquela violência e saí assombrada ao pensar sobre isso. Será que vi a coisa certa? Será que não estava percebendo coisas que nem existiam? Fui andando pelo mercado com um misto de raiva, tristeza e receio. Era fato ou algo da minha cabeça?

Decidi contar para o meu namorado, que estava concentrado em pegar algumas coisas. "Acho que fui assediada." Senti o rosto dele se fechar, o ódio transparecer e a vontade de ir tirar satisfação surgir. Repensando minhas incertezas, o impedi que fizesse algo. Ao irmos ao corredor em que tudo acontecera, lá vinha o rapaz da camisa branca. Paramos e o encaramos. Ao passar ao nosso lado, uma pergunta pairou: "é esse o cara?". Novamente como por mágica o rapaz apertou seu passo e sumiu dentro de outro corredor ao ver o namorado enfurecido.

Ele sabia. Agora, nós também. Não havia sido imaginação. O assédio esteve ali. 

Entrega

06:46:00

Exijo o beijo, o toque.
Exijo a entrega, o complemento.
Não me contento.

Me entrego, me embriago.
Na vida nada é em vão.
Tudo é pulsar, tudo é paixão.

Quem sabe o mundo se abre.
Quem sabe eu domo minha personalidade.
Quem sabe, verdade.