Velho

09:03:00

Lá vinha ele de novo. Franzino, enrugado, soando fraco e quase quebradiço no meio daquele inferno de carros e de tudo mais que se move à gasolina ou a qualquer coisa que ajude a dar vida àqueles monstros. 

O corpo, pequeno e sensível, estava curvado, como sempre. Em sua cabeça, um bonezinho branco. Vestia uma camisa de botões, uma bermuda e chinelos. Ele insistia em se manter no meio da avenida, praticamente parado e acenando para os carros. Em suas mãos, estava uma (ou seria a única?) possível parca fonte de renda, suas paçocas.

Ela via tudo pela calçada, enquanto caminhava apressada para mais um dia de trabalho. Não conseguia desgrudar os olhos daquela cena. Ele se arriscava ali. Ela esperava que nada de pior acontecesse. 

Não era a primeira vez que o via. Mas foi a estreia de uma atitude ainda mais guerreira do que já tinha presenciado. Zigue-zagueava por entre automóveis e corria em seus passos lentos e quase trôpegos. Em seguida, simplesmente se manteve inerte à movimentação insana e ali ficou, até que o sinal fechasse novamente e suas vendas pudessem ser retomadas. 

A cena não saíra de sua cabeça, como as demais que recebeu dele. Ele era a personificação de muita gente que está por aí, pelo país. Gente que mesmo com uma idade tão avançada, com tantos cabelos brancos e tanta dificuldade de ser ágil ainda precisa sair às ruas e se arriscar com suas balas e paçocas. Tudo pelo sobreviver. Tudo para manter alguma dignidade, alguma comida, alguma sobrevida. 



Já havia tentado escrever, expor melhor o que vejo sobre este caso umas duas outras vezes. Nunca me senti satisfeita. Confesso, ainda não é. 

You Might Also Like

0 comentários