In[sanidade]
16:26:00
Eu virei litros durante o dia de uma bebida amarga de cor viciante que antes me manteve seguro e vivo dentro de minha mente. De algum modo. Em momentos aleatórios, lá estava ela, lânguida, sóbria em sua dor e esperando... por mim.
Andei devagar para ela, por ela. Ela estendia seus finos braços, brancos como a neve de países distantes. Quando busquei o abraço oferecido, não havia mais seu perfume. Ela se fora mais uma vez para a minha completa confusão e dor.
Minha solidão, construída lentamente em décadas, dilacerava mais do que minha simples sanidade, que já não respondia por mim. Meu corpo cedia. A cada dia um pedaço meu caía sob o assoalho, onde me escondia de mim.
Sentia o cheiro pútrido e cheio de pecados e culpas. Sinal de vida se tornava cada vez mais escaço, a não ser pela minha sede infinita de álcool e de algum gesto de amor. Eu matei tudo isso com minhas mãos e com minha ganância sem medir qualquer consequência.
Adormeci no chão. Não havia mais tanta força em minhas mãos e braços para alcançar a garrafa que jazia bem perto de mim. Ela não viera, como ansiara durante a noite febril de desejo e dor aguda. Não ousava mais descer. Havia ainda muita bebida para me manter aquecido.
De repente, ouvi sua doce voz. Vinha do andar debaixo. Deveria responder. Não havia motivo para me questionar. Era o canto da sereia. Desci as escadas arrastando o que sobrou de mim. Senti o chão estalar em protesto.
A encontrei sorrindo e num vestido esvoaçante branco. Linda, esplêndida em sua agonia. Ela não precisou falar. Eu sabia o que toda aquela beleza, aquela luz e infinitude queriam dizer. Ela veio até mim, olhou fundo em meus olhos e me desvairou completamente para si. Minha mente já não era mais minha, nem o meu corpo. Foi ali que percebi que ela nunca estivera ali. Eu me rendi.
Ela não é real. Eu não posso fazê-la real...

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