Memento mori

09:00:00

Saí de manhã pela longa, quente transbordante e movimentada avenida com o gosto e o bafo de álcool da noite anterior. Minha cabeça explodia, como se agulhas penetrassem meu crânio duro e raspado. Eu odiava aquele lugar, aquela vida presa à necessidade de ter e aos horários que não podia exceder.

De qualquer forma, não tinha saída para mim. Já estava preso a isso e ia me arrastando pelos dias. Não esperava por nada de novo, de excitante, a não ser o momento em que ficava só e caía no sono maldito costumeiro.

Tudo era frio, monótono e insosso, até o dia em que a vi. Como era linda! Sua pele reluzia e me chamava à maciez, assim como seus longos cabelos escuros ondulados. Tudo nela evocava paixão e a sensação de que um buraco acabara de se abrir sob meus pés. Era o fim da minha vida.

Nunca tinha visto um olhar como aquele. Ele me sugava de tal maneira, que o mundo se desmanchou feito alucinação. Eu apenas conseguia ver vultos e pessoas escorrendo pelos buracos de suas vidas. Ela era a única figura sólida e intacta, como se fosse um anjo em minha porta pronta para sentenciar meu fim.

"Maldita", pensava num crescendo horroroso de querer, mas não devendo. Suas mãos frias tocaram meu rosto e eu percebi que não era mais meu (como se antes tivesse sido, meu cérebro me maltratava).

Tudo ficou claro. Apenas uma porta velha me esperava, ao fim do corredor. Passei por ela. Meu pulso cessou. 


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2 comentários

  1. Acabei por me identificar, não pelo estágio físico, mas, por certa "sombriedade" ao avistar a vida como chega, os outros, as coisas...

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    1. É muito gratificante saber que alguém se identifica e gosta <3

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