Lua [Caminhando para o dia]
07:08:00
"Tudo que mais sonhei era me manter sempre viva, acordada. Mas, sucumbi. Sucumbi ao desejo de me dar algum descanso; de dar ao dia alguma vitória sobre mim, minha própria noite. Eu acordei para algo maior do que sempre senti? Como poderei lidar, acordada, em pleno dia, com a escuridão que se choca em mim? Eu, caminhante da noite, amante de um brilho que faz morada em mim. Como poderei aguentar o peso de outro mundo?"
Lua não suportava o calor que insistia em entrar por todos seus poros. Estava aos prantos, esperando por asas noturnas que nunca mais viriam. No entanto, estava certa de uma coisa: o dia era o único movimento que lhe dava força real para que se tornasse, enfim, dia, e não mais um eclipse.
As sensações lhe invadiam. Era um jorrar de palavras guardadas anos a fio; de sentimentos afogados em noite; de sonhos que nunca saíram daquele quarto. Não havia espaço para Lua nem mesmo na escuridão dos dias. Não haveria esperança para ela com a luz. O conto estava acabado, finalmente. Seu exorcismo fora completado com maestria.
Caminhou até a escrivaninha, pegou o caderno com capa de couro surrada, deu-lhe um beijo demorado e o encarou como se fosse um outro ser, dotado de um mundo inteiro que só ele poderia carregar consigo. Então o colocou na gaveta, mas não a trancou, como de costume.
- É preciso que minha noite, que meu canto sejam vistos, sejam sentidos...
As sensações lhe invadiam. Era um jorrar de palavras guardadas anos a fio; de sentimentos afogados em noite; de sonhos que nunca saíram daquele quarto. Não havia espaço para Lua nem mesmo na escuridão dos dias. Não haveria esperança para ela com a luz. O conto estava acabado, finalmente. Seu exorcismo fora completado com maestria.
Caminhou até a escrivaninha, pegou o caderno com capa de couro surrada, deu-lhe um beijo demorado e o encarou como se fosse um outro ser, dotado de um mundo inteiro que só ele poderia carregar consigo. Então o colocou na gaveta, mas não a trancou, como de costume.
- É preciso que minha noite, que meu canto sejam vistos, sejam sentidos...
Serenamente, Lua abriu a janela, o único cerco que a distanciava do mundo real, e subiu lentamente o parapeito. Encarou, pela primeira vez, o universo lá de fora, cercado de brilho e azul.
Como Ícaro, Lua abriu suas asas para o dia e finalmente voou.
Como Ícaro, Lua abriu suas asas para o dia e finalmente voou.

3 comentários
Escrever é libertar-se. Em algum momento, Clarice Lispector disse algo relativo a isso e mudou e muito a minha vida. Escrever é dar passos no vento...
ResponderExcluirSinto Lua assim, caminhante do vento. É como se ela fosse o próprio vento... e desnuda-se de luz ou de sombra, ao passo que vai vivendo...
Lua é nós.
Lindo e sensível, Bruna!
Beijo.
Muito, muito obrigada pelas palavras, Thay! De verdade, estive ansiosa por postar esse conto e ver como vocês o receberiam. Estou muito feliz de ver que existem pessoas que compartilham comigo muitas coisas, entre elas, o próprio ato de escrever, de se desnudar assim, digamos rsrsrs.
ExcluirAdorei mesmo sua colocação! Obrigada <3 Que bom que minha Lua também é de mais alguém!!!
Ou melhor, Lua somos nós*
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