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Eu me tornei jornalista por alguns poucos motivos. Porém, para mim, cada um deles era forte.
Para começar, eu gostava de escrever, de tentar imaginar histórias, de lidar com a caneta e uma folha de caderno. Não, não penso que sou uma escritora ou poetisa, nada do tipo. Eu só sempre me senti bem tentando por no papel o que estava na minha mente. Ok, o jornalismo não é, necessariamente, tudo que se pensa ou se sente, quer dizer, ao menos é o que aprendemos na faculdade. Não vou entrar no mérito do que é visto de verdade ou entrar numa questão pseudo-filosófica sobre a profissão. Só estou querendo dizer que o ato de escrever foi o primeiro a me impulsionar.
Em seguida, não menos importante, veio o segundo fator: eu achava que através desse ato de pertencimento ao universo jornalístico eu poderia somar, fazer alguma diferença em algum lugar... ou para alguém. Sinceramente, creio que este era o motivo que mais pulsava naqueles anos.
Por fim, digamos, era o meu gosto por ouvir também. Sempre admirei pessoas que conseguiam parar para ouvir o mundo, as pessoas ao redor e até mesmo o que pequenas coisas tinham a dizer. Sinceramente, na minha opinião, esse é o preceito básico para um bom jornalista: saber ouvir. Não sair questionando a torto e a direito sem algum embasamento ou, pior, sem sequer conseguir ouvir o que o (s) outro (s) tem a dizer é um pecado grave.
E é disso que eu quero falar nesta página digital. Quero falar sobre o ouvir. Sobre o estar atenta, de frente para alguém, e simplesmente ouvir.
Além das experiências que a vida mesmo me colocou, como ouvir amigos, ou alguém da família, eu estive em uma bem marcante, quando iniciei meu trabalho de conclusão de curso. Havia escolhido fazer um livro-reportagem contando história de algumas mulheres resilientes. Fui em busca de minhas heroínas e as encontrei. Horas de gravação, mais horas ainda de transcrição e de tentar juntar o quebra-cabeça fantástico que é construir uma grande reportagem. Exige tanto da massa cinzenta, mas também do coração.
Eu ouvia o máximo; intervinha o mínimo que podia, apenas o necessário. Se era fácil? Não, nem um pouco. Não digo isso por não ser prazeroso, porque, oras, era. Digo porque são histórias de vida tão ricas, tão enredadas e complexas que cada frase merecia mais umas duzentas perguntas. Calar tudo isso e apenas escutar e aguardar o momento e a pergunta "certa" eram meu norte. Foi difícil e nem sei dizer se fiz bem, mas sei de uma coisa: fiz o meu melhor para além de nota ou de uma graduação; fiz por elas.
As duas senhoras que deram vida ao meu projeto são exemplos de força, resiliência e determinação. Nenhuma deixou a cabeça abaixar mesmo nas dores mais terríveis ou nas experiências mais esdrúxulas. Como eu poderia sair disso a mesma? Impossível! Elas me inspiraram e até hoje me acompanham em pensamento. Eu quero ser forte como elas me mostraram ser possível.
É o que venho tentando ser, da forma como posso, caindo sempre, levantando a maior parte da estrada e sonhando. Há quem diga que sou crítica demais comigo mesma. Talvez seja verdade, talvez eu exija de mim o lado guerreiro que ainda não consigo me dar, mas eu sei que é só o caminho, o percurso, não é o fim dele.
Foi ouvindo que conquistei alguns bons conselhos; foi ouvindo que consegui superar uns momentos delicados e tristes, além de marcantes; foi ouvindo, mesmo de forma desajeitada, talvez torta, talvez tardia, que me despi de pensamentos equivocados, de amores errados e alcei outro voo. É ouvindo que busco estar próxima dos meus; é dessa forma que tento ajudar, contribuir com meus amigos e com quem amo. Ouvir o outro é um presente, um dos mais caros que podemos oferecer a alguém. Ouvir é uma dádiva. Nem todos alcançam ou nem todos a querem. Ouvir pode ser porta para novos contrastes, sonhos; é ouvindo que talvez uma vida seja salva.
Eu pretendo continuar tentando ouvir. Mais que isso, ouvir e absorver. Vou continuar tentando ouvir o que a natureza tem a dizer, o que minhas ações gritam sobre mim, o que meus amigos e minha família me dizem; o que as experiências cotidianas estão querendo me dizer.
É assim que gosto de levar a vida; são pessoas assim que fazem meu coração se manter aconchegante e grato.
Obrigada a quem me ouviu; obrigada a quem continua me ouvindo, demonstrando empatia e carinho. Ouvir é um presente, repito, e esse é o mais especial que vocês me dão.
P.S.: Que sempre nos lembremos que ouvir é um ato de amor, mas uma grande responsabilidade.

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